“A Alma Que Dominou o Mundo”
Perpetuadas nas minhas memórias as viagens ao céu, lugar não só de anjos, a vénia de Deus abre caminhos, sol arrebata a chama dos carinhos meus.
Criança, agarra pautas de música viajantes no ar, odor suave das praias embriagadas de gentes, o sorriso altivo do mar acaricia a boca do vento num beijo intenso de amar.
Chega o Verão com rosto puro de anjo.
Escadaria do céu transforma o mundo, a nuvem navega a areia silenciosa onde se deitam amantes apaixonados.
Agora a pauta humana toma conta, numa troca incendiária de fluidos, mãos desertas do vento embalam na lua sinistra o significado puro da palavra.
Eu, correndo o véu cintilante da estrada, levado pela aurora até ao pecado da madrugada, composto de sol.
Odor desta gente que passa, movimento irrequieto, ser humano na sua condição abraça o que restou do Inverno.
Sigo, estreitando as ruas, um homem comercializa sentimentos nas mãos suas, beco sem saída, as gentes precisas compram! Devoram tudo e compram! Desesperadas e insaciadas.
A mão traça levemente este rosto, a máscara do homem cai no chão, atordoado de insanidade, loucos dirigem-se para o sol procurando eternidade e os anjos cantam hinos, esta gente, felicidade, roga-se humanidade.
Viajei um mundo complexo, as mãos levadas ao rosto vestem nova máscara, silenciado nas multidões vou perdoando, agora…
Agora vesti-me de Deus, ou de, um Deus.
Arrebatado na solidão das mãos do vento, a carícia que o tempo furtou, sou medo de gente sem ser gente, acabo olhando o mapa estrelar namorando, vaga de mar num céu resplandecente e espelhado.
Senti-me selvagem… Nascido só, num lugar qualquer.
Perpetuadas nas minhas vivências, viagens são versos que construí, modifiquei, queimei, assumi. Viagens, sou eu…
Fico paralisado observando, réstias de amor passageiro, saudade de quem ficou, nasce embriagado de mar o sol, o verso percorre as veias, fervor de uma alma de expressão condenada a observar e relatar quase nada.
Mundos ficcionais eu vivi…
Viajei e conheci milhentos lugares, nas ruas estreitas alguém sempre espreita querendo agradar.
Não comprei sentimentos… Não…
Parti para todos os lugares para dar tudo de mim, obcecado por palavras, carente de paixão e amor…
Parti para os mundos que desenhei, a tela não esteve sempre pálida, estavam ali as estradas, planícies sóis mares e madrugadas. Estavam ali… os meus gritos e os meus sorrisos.
Ficaram as mãos de carvão que moldaram corpos para que nada mais tivesse fim ou início.
Viajei e pintei. Viajei e recordei… Cresci, fui-me, mas não voltei.